sábado, 18 de janeiro de 2014

18/01/2014 - Eles Vão, Fotografam e Saem...

"Fotografia é o retrato de um côncavo, de uma falta, de uma ausência" - Clarice Lispector

Pela terceira vez fui conferir a exposição em homenagem a Cazuza no Museu da Língua Portuguesa. É o tipo de passeio que percebi ser bom combustível para me animar e impulsionar aos trabalhos literários. Viver em um mundo onde a leitura e artes em geral são marginalizadas como coisas pedantes ou irrelevantes para a formação das pessoas é cruel. Mas nem todos que fazem tais passeios conseguem aproveitar; hoje as pessoas vão aos lugares para tirar fotos, unicamente para isso, o mar está ali, a pessoa corre, entra, manda bater uma foto e fica meia hora recortando, ajeitando, batendo outras fotos, e a diversão ou aproveitamento do lugar fica para segundo plano. O mesmo acontece em ambientes que tinham como principal fator agregar conteúdo aos meros mortais, porque a arte é assim, e principalmente artes engajadas, você não vai apenas se divertir, mas aprender, perceber algo e estimular os sentidos, e se for alguém com intenções artísticas então será melhor, conseguirá se sentir amparado ou ligado a qualquer grande artista que por uma magia que só é possível na arte, está de acordo com as suas convicções, e não existe acomodamento, isso lhe instiga, ajuda a criar, deseja mudar o mundo e tocar o belo e o divino, é isso que alguns artistas causam em outros artistas ou revolucionários, porque a revolução também tem a importância de uma arte. Mas os tempos são outros, são poucos os que percebi em minhas três idas à exposição que estavam verdadeiramente aproveitando, percebendo todos os significados e informações sobre o poeta. Um pequeno exemplo pode ser notado na sala de recepção, onde um telão mostra a importância da música, dos trovadores e algumas das inspirações do poeta Cazuza, nesta sala sempre poucos param e assistem realmente a apresentação até absorver tudo, a maioria aparece, olha, acha legal “Olha, uma imagem se mexendo”, então balançam o corpo com o fundo musical de Cazuza que vem de outra sala, mas elas não param, não assistem, puxam suas câmeras porque a pirotecnia é linda e batem a foto, pronto, já estiveram ali, partem para outra sala. Em outra sala temos 5 televisores com um sofá, para sentarmos confortavelmente e assistirmos bons depoimentos sobre juventude, revolução e sobre o poeta, são artistas importantes e pessoas que estavam ligadas a ele, mãe, amigos, namorado e colegas de trabalho, para entendermos o gênio, vamos sentar e assistir durante quase 2 ou 3 maravilhosas horas? Não... A palavra da ordem é rotatividade, alguns assistem um ou outro depoimento, acham legal que as telas liguem e desliguem intercalando depoimentos sem sabermos onde aparecerá o próximo, mas a brincadeira para no estilo, no tipo de sala, poucos assistem realmente todos e com atenção, porque um passeio deste é para deleite do fã, para compreensão de sua obra, não apenas para ver como a exposição foi bem feita, porque isso nós percebemos naturalmente, mas não é o foco, infelizmente para muitos é, e batem a foto, batem outra foto, e vão para outra sala. O museu está lindo e a exposição maravilhosa. Em outra sala temos um telefone com uma gravação de Cazuza, ele toca, atendemos e escutamos sua voz para percebermos a personalidade do poeta boêmio e amalucado, entendermos que seu exagero era necessário e contribuiu para letras realmente importantes, profundas, rebeldes; muitos atendem e escutam enquanto fazem poses e sorriem para fotos, e fica tudo estranho, pergunto-me se prestaram atenção nas palavras de Cazuza ou apenas seguraram e fizeram a melhor pose.

A exposição é maior que isso, existem alas com outras coisas, e no museu ainda existem dois andares com toda história da literatura, língua portuguesa, teatro e um cinema. Em três idas, sem contar nas outras exposições neste mesmo museu, não consegui ler tudo, mas sempre que vou absorvo um pouco deste universo em que estamos inseridos, de nossos grandes mestres da poesia e literatura, do mundo das palavras, de tudo isso que é maravilhoso e que não seríamos nada se não tivéssemos. Pensamos em uma língua, nosso comportamento é moldado pela capacidade de elaborar palavras, e nosso caráter também moldado pelas análises e tramas destes grandes mestres das letras. O mundo está sendo fotografado, as pessoas foram, fizeram pose e bateram fotos, anotaram na agenda que já cumpriram a missão de ir e registrar o momento, mas quem realmente aproveitou? Quem esteve ali não só de corpo presente? É uma pergunta que fica no ar.

Estar Abstrato

Tempos fotografados, tão fingidos.
Ninguém lembra do sol, do ar, da praia,
são todos retratos, ratos, cobaias
do não viver, do não ter nem sentido.

Apenas rostos, flashes em sorrisos,
um procurar cenários, ter saído...
mas como pode “Estar” sem ter vivido,
sem ter sabido e aproveitado isso?

Estar não é mais a mente presente,
é o mero detalhe, infelizmente,
é pra falar que foi, não pra ter ido.

É pra mostrar que foi em seus retratos,
qualquer “Estar” é hoje abstrato,

e o lugar então, desconhecido.

Fabricio Martines Alves

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