quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

23/01/2014 - O Dia do Fico - Quando Recusei um Emprego Público

"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"( A. S. Exupéry)

A vida é um grande efeito borboleta, literalmente, cada escolha abre possibilidades diferentes em nossas vidas, se não fosse por aquele emprego, não teria conhecido tais pessoas, se não tivesse passado na prova do concurso público estaria em outro lugar, ou se tivesse passado.
Quero falar do dia que não fui. O dia do fico. Sempre falei do tema Amizade, que é o mais emblemático possível, complexo, não sabemos bem como lidar com os amigos, o que é ser amigo? O que é não ser? Como agir? Quais nossas obrigações? E ainda há o ditado inquietante do criador de “O Pequeno Príncipe” que abre este capítulo.
Tudo aconteceu em 2008; oscilo entre me arrepender e não me arrepender, mas não me arrepender é mais fácil já que não existe máquina do tempo, se existisse eu me arrependia e voltava, talvez não, não sei. Eu estava desempregado, enfrentando um desemprego gigantesco que vinha desde meus 18 anos, embora tivesse um passado de “quase empregos”, mas emprego que é bom nada, ou emprego que é ruim, sei lá, nada, nadinha, isso não era o pior, o que me inquietava era e sempre foi a questão “Ter um amigo”, eu nem esperava por aquilo, nem procurava. Subitamente consegui meu primeiro emprego, eu era o segundo mais velho e mais inexperiente do trabalho, só garotões e eu ali com 26 anos. Até aí tudo bem, mas em meu período de desemprego prestei vários concursos públicos, respostas que demoravam a chegar. Então caí no emprego, uma loucura... Em pouco tempo, pouquíssimo tempo, percebi que nunca tivera amigos porque eu não tinha um círculo social, aquele detalhe ultrapassou qualquer profissionalismo, eu gostava do emprego porque lá tinha amigos, e de quebra tinha até um melhor amigo, isso foi algo realmente importante em minha formação, um melhor amigo que me considerava melhor amigo, e eu tinha que fazer tudo certo ou corria o perigo de perdê-lo, pode soar algo de novela, mas era quase... Foi quando a bomba veio por correio, chegou uma convocação da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do concurso que fiz para Auxiliar de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica. Detalhe: Apenas duas vagas. Outro detalhe: Fiquei em segundo lugar. Terceiro detalhe: Salário de 2.040,00 Quarto Detalhe: Eu ganhava 500 e pouco.
Qualquer um em meu lugar falaria “Foda-se” ao atual emprego e correria para um lugar melhor... eu não... e tem o motivo que nunca escondi. Este motivo foi unicamente uma pessoa, meu melhor amigo, aquela coisa rara que nunca tive. A amizade estava no início, e tudo que passou por minha cabeça foi que eu não teria mais um amigo, e mesmo que falem que amigos encontramos em todos os lugares, o que é verdade, todo amigo é insubstituível, o meu também era. Conversamos, ele me incentivou a ir, claro, queria o meu melhor, mas meu medo era o de não melhorar a amizade, perdê-lo, esquecermos um do outro aos poucos, é uma verdade da vida, nenhum amigo restara do colégio ou faculdade, nunca fiz laços com ninguém, mas ali eu consegui, não sei como, mas eu tinha um amigo. E depois de pensar eu desisti de ir à escolha do cargo, falei que não o abandonaria e não fui. Recusei o cargo. Este sou eu, idiota, trouxa, que valoriza mais as amizades que os empregos ou o dinheiro. Não quero me gabar, e nem culpo ninguém por isso, sei que a escolha foi minha... Se me arrependo porque minha passagem naquele emprego acabou quase em morte, não me arrependo porque ele e eu somos amigos até hoje, trabalhamos em lugares diferentes, mas foi aquele tempo que tivemos, uns 2 anos ou menos, que fortaleceu nossa amizade, rimos, choramos, saímos, construímos algo e viramos irmãos, sei que é algo especial... Tudo que consegui como ser humano valeu à pena; sou grato por ele existir e estar em minha vida. Claro que hoje nos vemos pouco, cada um em um emprego, mas sempre marcamos alguma coisa, conversamos e é algo que dinheiro algum paga. Não posso falar que me arrependo porque, apesar daquela escolha ter quase literalmente me matado (conto em outra oportunidade), com todas as tempestades, hoje estamos aqui, fortes, posso chamá-lo de meu melhor amigo.
É um sentimento tão complexo de carregar. Eu poderia estar em outro lugar, não teria passado por tanta coisa ruim no outro emprego e neste, uma coisa leva à outra, a desgraça no outro emprego me deu um amigo, deixou-me desempregado, então passei por períodos difíceis, trabalhei em supermercado como escravo, até que caí no lugar que estou hoje, um emprego público, desmistifiquei a glória do funcionalismo público, mas encontrei pessoas maravilhosas, tenho até um segundo amigo, que é um cara muito bacana, uma pessoa maravilhosa. Estas coisas, esses laços realmente contam em nossa vida. Se eu eliminasse tudo isso, se eu tivesse escolhido ganhar mais e estar “tranquilo” em um emprego público lá em 2008, não teria meu melhor amigo, nem teria conhecido outro amigo, talvez estivesse tranquilo financeiramente, não estaria depressivo como estou, não estaria querendo me matar, não sei, realmente não sei... É tudo um efeito borboleta, tudo que consegui de ruim e de bom sumiriam, outras experiências surgiriam, realmente não sei. É bom ter amigos. Sinto-me humano enquanto valorizar mais as amizades que a parte financeira. Mesmo sabendo que, talvez, se fossem eles no meu lugar, teriam escolhido ir para o emprego melhor... E eu sobraria.
O irônico é que em qualquer trabalho há grandes movimentos em busca de empregos melhores, oportunidades novas, cargos diferentes, mudanças de setores, mas quase nunca focam na família construída, nos laços, todo mundo está sempre de olho em outro lugar ou posição, enquanto fico unicamente de olho nas pessoas, quero estar com elas, e é isso que basta... Quando saio de casa não saio pensando que preciso de um emprego novo para ganhar mais e ter estabilidade financeira, casa, carro... Penso unicamente “Que bom, verei fulano, ciclano e colocaremos a conversa em dia (Mesmo que estes momentos sejam raros, na hora de lanchar e em momentos rápidos)”, e quando tudo está ruim, ou quando percebo o enfraquecer de laços ou qualquer clima estranho que não tenha nada a ver com o trabalho, meramente de relacionamentos, fico abatido e penso “Que saco, deu tudo errado, preciso mudar de ares e tentar a sorte em outro canto”, consigo aturar qualquer porcaria, sempre abaixo a orelha para superiores, faço o que pedem e não reclamo, porque para mim tanto faz, pra eles é bom, pra mim whatever... Mas se as relações estão quebradas eu não sei mais ser um bom funcionário, começo a chorar em silêncio no banheiro, perco a linha em público, recuso serviços, mando patrão ir se foder, e pronto, estou tentando pular fora, porque não penso que é um emprego que preciso, mas que preciso de laços em minha vida; não sou um bom funcionário, sou um bom ser humano, quando pareço bom funcionário é porque tudo está certo em minhas relações, quando sou um péssimo funcionário é porque aquele lugar tanto faz, estou lá pelas pessoas. Não sei se sou errado, é só diferente. E não existe esta porcaria de “Tem que saber separar trabalho de vida pessoal”, porque é você que está lá trabalhando pessoalmente, tudo é pessoal, absolutamente tudo é pessoal, tão pessoal que facilmente vemos amizades surgirem e funcionários terem mais regalias ou privilégios que outros, mas não quero polemizar, em todo emprego é assim, e se é pessoal para quem manda, é pessoal para quem obedece. Podemos ser vários, mas a vida é uma, e a mesma vida que você usa pra transar no motel, beijar uma garota, tomar um sorvete, é a vida que você usa para trabalhar seja naquilo que for. Tudo é pessoal. Só não é pessoal para os robôs ou para os que não têm sentimentos.
Mas amizades pedem tempo, boas amizades pedem tempo, acho que essa rotatividade humana em nossas vidas elimina qualquer construção de um laço mais forte. De qualquer forma acho que estou me cansando do jogo, tudo passa e nós passamos, só lutarei sempre para que em qualquer lugar eu mantenha contato com as pessoas queridas, e contato não significa uma curtida no Facebook ou uma conversa via celular, contato requer “encontros”, sentir que a pessoa existe. O mundo precisa de encontros, não de histórias de quando a amizade existia, precisa de novas histórias acontecendo, e não de lembranças dos velhos tempos.

A vida é um grande saco de ironias, infelizmente não temos uma máquina de “E se...” como no desenho Futurama para ver o que teria acontecido se tivéssemos recusado ou aceitado um emprego. Algo me diz que estou no fim, mas não sei, isso tudo é estressante, sofremos mais por aquilo que poderíamos ser do que por aquilo que somos, os fantasmas da mente nos atormentam mais que os fantasmas espirituais, porque os da mente nós sabemos que existem, e quase sempre existem por nossa causa, os espirituais são assuntos para pessoas especializadas e que não me interessam.
Obs.: Relevem meu esgotamento, é físico e mental. Estou com uma cicatriz ardendo porque ralei meu dedo numa mesa que carreguei na escola... E eu achando que trabalhava numa escola, não em um campo de obras.

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